“Não se faz mais política sem mulher no Brasil de agora em diante”, afirma Céli Pinto

 

Milhares de pessoas saíram às ruas das cidades brasileiras no último sábado (29) para demonstrar repúdio ao candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL). Os atos, liderados por mulheres, foram motivados pelas declarações de cunho machista e preconceituoso por parte do candidato em diversas ocasiões. Em Porto Alegre, a manifestação no Parque Farroupilha (Redenção) reuniu mais de 40 mil pessoas, segundo as organizadoras.

 

Para a cientista política Céli Pinto, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ainda não é possível prever qual o impacto das manifestações nas urnas, mas já se tem certeza de sua importância histórica. “As manifestações foram muito grandes, muito importantes, e certamente foi o maior movimento de mulheres da história do país”, avalia.

 

Dentre as diversas falas de cunho misógino, machista e violento de Bolsonaro, uma das mais conhecidas é o episódio em que ele disse à colega deputada federal Maria do Rosário (PT) que não a estupraria porque ela era “não merecia”, acrescentando que era “muito feia”.

 

Em sua atuação na Câmara nos últimos 27 anos, o deputado também já defendeu que mulheres recebam menos do que homens porque engravidam e classificou o nascimento de sua única filha do sexo feminino, após quatro homens, como “uma fraquejada”. Seu vice, General Mourão (PRTB), recentemente afirmou que famílias criadas por mãe e avó são “fábricas de desajustados”.

 

Segundo Céli, um dos méritos da mobilização foi justamente ter juntado uma multidão chamada por mulheres. “É organizada por mulheres, construída por mulheres e trouxe para a rua homens e mulheres. Eu fui à manifestação e tinha muitos homens, crianças, em um tamanho que não se via desde as Diretas Já”, afirma a professora.

 

Os protestos acontecem na onda do movimento #EleNão, iniciado nas redes sociais a partir do grupo no Facebook ‘Mulheres Unidas contra Bolsonaro’, que já reúne quase 4 milhões de participantes.

 

Céli menciona que os atos acabaram se tornando também uma reivindicação a favor dos direitos humanos em geral, incluindo populações LGBT, indígenas e negras, que também já foram alvo de ataques por parte de Bolsonaro. “A hegemonia era de mulheres, mas talvez a coisa mais importante é que o movimento ‘Ele Não’ se tornou muito mais do que isso”, aponta.

 

A cientista política critica, porém, o papel da mídia na cobertura das manifestações. “Houve uma tentativa muito pouco séria de fazer uma comparação entre o movimento de massas, muito amplo, contra o Bolsonaro, contra a ameaça que ele representa à democracia, e manifestações de apoiadores dele. Eles tentaram novamente fazer esse tipo de coisa como se dois extremismos aparecessem. Isso foi um grande desserviço que a mídia prestou ao país”.

 

O que ela considera fundamental, a partir de agora, é que o movimento que foi lançado em função da candidatura de Bolsonaro tenha continuidade. “Meu desejo, minha expectativa é que isso seja alguma coisa maior que as eleições. Neste momento, estas questões ficam no centro da discussão. Mas as pessoas não fazem política o tempo todo nem se mobilizam o tempo todo”, destaca, acrescentando que, seja quem for que ganhe a eleição, “há uma mobilização muito interessante para enfrentar momentos difíceis”.

 

As mulheres, com esse movimento, passaram a perceber que podem sim ter um papel de protagonismo no que se refere à política, na avaliação da professora. “As mulheres, nessas eleições, mudaram a sua posição em relação à política. Ou seja, não haverá mais política no Brasil sem as mulheres”, define.

 

Céli destaca que o Brasil é um dos mais atrasados do mundo em termos de representatividade feminina na política institucional, o que pode vir a mudar, “não por vontade da lei”, mas sim como consequência dessa grande mobilização. “Acho que talvez seja a grande vitória desse movimento, é que não se faz mais política sem mulher nesse país de agora em diante”, afirma.

 

Fonte: Débora Fogliato – Sul21

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