Mulheres fazem roda de conversa no RS sobre jornada de luta para o 8 de Março

Foto: Foto: Fabiana Reinholz / BdF Rio Grande do Sul

Foto: Foto: Fabiana Reinholz / BdF Rio Grande do Sul

 

 

Foram 37.381 ameaças, 20.989 lesões corporais, 1.714 estupros, 100 feminicídios consumado, 359 tentativas. Esses são os indicadores de violência contra as mulheres no Rio Grande do Sul, constantes em um relatório recente do Observatório Estadual de Segurança Pública. A luta contra o feminicídio e pelo fim da violência contra a mulher será uma das principais pautas deste 8 de março.

 

 

Para conversar sobre o assunto, o Brasil de Fato RS realizou, na quarta-feira (5), a primeira roda de conversa sobre o Dia Internacional das Mulheres. Conduzida pelas jornalistas Telia Negrão, do Coletivo Querela Jornalistas Feministas, e Katia Marko, editora do BdF RS e também integrante do Querela, a mesa teve como debatedoras Gabriela Cunha, da Marcha Mundial das Mulheres, Salete Carollo, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), e Telassim Lewandowski, do Coletivo Feminino Plural. O bate-papo ocorreu na sede do coletivo.

 

 

A constatação das debatedoras é unânime: após alguns avanços nas políticas públicas, o país atualmente se encontra em um caminho de retrocesso, com ausência total do Estado. E reforçam, o 8 de Março não é só mais um dia, e sim uma jornada que se estenderá até o dia 14, data em que se recordam os dois anos do assassinato de Marielle Franco. Até hoje, as investigações não ofereceram resposta sobre quem foram os mandantes do crime.

 

 

Por quase duas horas, as participantes debateram sobre violência contra as mulheres, avanços e retrocessos, eleições e muito mais.

 

Salete Carollo da direção nacional do MST / Foto: Fabiana Reinholz

Salete Carollo da direção nacional do MST / Foto: Fabiana Reinholz

 

“É um momento muito importante, porque o que nos atinge é o mesmo alvo. E, para esse alvo ser combatido, nós precisamos ser solidárias entre nós e organizarmos este enfrentamento. Falamos muito em retirada de direitos, quanto mais nos retiram, mais fortes precisamos ser, e para isso a organização é fundamental. Recuperar o sentido e a origem do 8 de Março e trazer para o nosso momento histórico é fundamental”, afirma Salete.

 

 

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou o Dia Internacional das Mulheres, que é comemorado desde o início do século 20. Suas origens remetem à grande passeata das mulheres em 26 de fevereiro de 1909, em Nova York, em que 15 mil mulheres marcharam nas ruas da cidade por melhores condições de trabalho; ao incêndio em uma fábrica em Nova York, no dia 25 de março de 1911, na Triangle Shirtwaist Company, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens; e ao ano de 1917, quando um grupo de operárias russas saiu às ruas para se manifestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial.

 

 

Gabriela Cunha da Marcha Mundial das Mulheres / Foto: Fabiana-Reinholz

Gabriela Cunha da Marcha Mundial das Mulheres / Foto: Fabiana-Reinholz

 

 

Para Gabriela, essa última é a data que deu origem ao dia. “Elas saíram das suas fábricas mobilizando outras mulheres, de outras fábricas, até chegar a um ponto de movimentação massiva das mulheres na rua que foi o pontapé para Revolução Russa”.

 

 

Para além do surgimento da data, o fato é que ela nasceu da inconformidade das mulheres operárias, que saíram às ruas clamando por melhores condições de trabalho, lutando por seus direitos. Mais de um século depois, muitos avanços foram conquistados. Avanços que, no Brasil atual, estão ameaçados. “Nossos tempos têm sido bem duros desde que sofremos golpe contra a presidenta Dilma [Rousseff]. Os avanços que tivemos de políticas públicas nesse período, e que foram importantes, no momento que nos encontramos estão retrocedendo de uma maneira muito rápida”, explica Telassim.

 

 

Feminicídio de Estado

 

 

Conforme aponta Salete, historicamente as mulheres lutavam por direitos, por terra, por pão, por arte, por liberdade, coisas muito concretas. “A terra, que proporciona o acesso ao trabalho, é coisa que nós herdamos”, afirmou. Ela cita, nessa luta, as mulheres camponesas, as mulheres sem-terra, as mulheres da Via Campesina no mundo, organizadas em 86 países. Nesse percurso, de acordo com Salete, houve um processo de tomada de consciência.

 

 

Ela explica que entre as campanhas defendidas pelo movimento, há mais de uma década, está o basta de violência. “Não é somente a violência física que é o ápice, é o óbito, mas também a violência por parte do Estado. Várias formas de violência que acontecem e que nesse momento no Brasil aprofundam-se quando temos uma pessoa que dirige o país e que faz a gestão do Estado, desmontando todos aqueles pequenos direitos que nós fomos conquistando, seja no trabalho, na aposentadoria [reforma da Previdência], ou na implantação de megaprojetos como da mineração, que nos retira daquele território”.

 

 

Telassim Lewandowski do Coletivo Feminino Plural / Foto: Fabiana-Reinholz

Telassim Lewandowski do Coletivo Feminino Plural / Foto: Fabiana-Reinholz

 

 

Para Telassim, vive-se um feminicídio de Estado. Mesmo tendo uma lei específica, isso não dá conta da realidade. “Esse feminicídio institucionalizado, vemos no assassinato da Marielle Franco, na nova política do uso de armas, no apoio ao uso de armas. Todos os dias nós acompanhamos vários casos, a impunidade é muito grande. Isso nos remete a um momento muito grave, de que o Estado brasileiro está autorizando os homens a matar as mulheres, a agredir”, alerta.

 

 

Gabriela complementa que, no contexto da violência estatal, está a questão da criminalização das mulheres que abortam. “Uma violência institucional, porque não se tem o direito e a autonomia ao nosso corpo, nossa vida, porque gerar uma pessoa, ter um filho, é um projeto de vida e a gente precisa ter autonomia sobre a nossa vida, sobre o nosso projeto”.

 

 

Controle dos corpos

 

 

“Esse governo não garante a educação sexual, a sexualidade continua como uma caixinha fechada, onde se desconhece todo sentido de sexualidade como criação de significado para a vida das pessoas. Existe agora uma proposta de política de abstinência sexual como forma de prevenção da gravidez na adolescência”, aponta Télia, ao pontuar que a sua geração fez a revolução sexual dos anos 70, com o advento da pílula. “Quebramos os padrões de moral e hoje, 40 ou 50 anos depois, se fala em abstinência sexual. Sabemos que isso não deu resultado no mundo. A que se deve isso, a quem serve isso?”, questiona.

 

 

Na avaliação de Katia, é mais uma forma de um controle dos corpos. “Controle que se faz também através da alimentação, um corpo cada vez mais envenenado, através de remédios para depressão, e um controle através da sexualidade. Isso mostra muito fortemente o controle das religiões, principalmente das neopentecostais, que estão aí no governo.”

 

 

Por trás desse discurso, há um moralismo, avalia Salete, pois a abstinência é cobrada das mulheres. “Isso é para nós tornar submissas e aparar as mulheres, porque abstinência não é para os homens Não é o governo que vai fazer a gestão sobre o meu corpo, sobre a minha vontade, não é a religião. Mas sabemos que por trás disso tudo há uma máfia, alguém está conduzindo, aliado ao capital onde tudo passa a ser mercadoria”, sentencia.

 

 

“Isso é uma grande resposta a todo movimento que acontece em vários países, das mulheres que vão para a rua, sobre a autonomia e tudo o que a gente já conquistou até agora. Está mexendo, incomodando quem sempre teve e tem interesse nessa estrutura, como as transnacionais, o Estado e o conservadorismo que precisa continuar atuando para se manter”, afirma Gabriela.

 

 

Telassim frisa que é claro a quem serve isso. “Quanto mais ignorante formos em relação a isso, enquanto as nossas crianças forem mais ignorantes, menos elas saberão que estão sendo molestadas, estupradas, abusadas, porque elas não fazem ligação com a questão sexual”, expõe. Para ela, apesar do conservadorismo ter avançado, a resposta que está sendo dada é o rompimento desse ciclo. “Estamos cada vez mais com outro olhar sobre isso, sobre a nossa comunicação, sobre essa questão de darmos as mãos. Na prática cotidiana, a gente precisa sempre que o ‘ninguém solta a mão de ninguém’ não seja da boca para fora. A partir desse movimento crescente de conservadorismo, temos resistido de muitas formas”.

 

 

Mulheres na política institucional

 

 

De acordo com o Mapa Mulheres na Política 2019, relatório da ONU e da União Interparlamentar publicado em março do ano passado, o Brasil ocupa a posição 149 em um ranking mundial de representatividade feminina no governo, em um total de 188 países.

 

 

As mulheres ainda constituem um pouco mais de 10% das representações das bancadas no Senado, na Câmara, nas assembleias legislativas, nas câmaras municipais e nas prefeituras, pontua Telia. “Temos três deputadas federais no Rio Grande do Sul, entre 31 deputados”.

 

 

A questão das eleições também é um forte debate a ser colocado no contexto da jornada do dia 8 de Março. “Vai ser um momento das mulheres botarem a cara e mostrar que querem ser candidatas, querem estar nos espaços de poder. Contudo, é preciso ter cuidado para que não se exclua certas pautas”, observa Gabriela, que exemplifica a questão da legalização do aborto. “Essa pauta sempre foi um problema, por mais que a gente tivesse eleições com candidatos de esquerda, progressistas, esse assunto aparece como um tabu que não se pode falar. Como assim não se pode falar se em todos os lugares, todos os espaços, isso está presente?”, questiona.

 

 

Na avaliação de Telassim, a questão da representatividade das mulheres e das cotas são questões que abrange tanto os partidos de direita quanto de esquerda “Nós somos colocadas como um problema, a cota de mulheres é um problema para os partidos resolverem. Há também a dificuldade das lideranças militantes de se colocarem como pré-candidatas”, opina.

 

 

Ela aponta as candidaturas coletivas como exercício importante de democracia e cidadania, que parte das mulheres em alguns estados em que já existem essas candidaturas se construindo. “Cabe a nós apoiar essas mulheres, precisamos falar mais de política em cada espaço”.

 

 

Para Salete, é fundamental as mulheres estarem na política, ocupar esse espaço e não reproduzir as velhas formas de se fazer política. “Precisamos utilizar mais tempo para articular, pensar e discutir qual é o projeto de município que nós queremos, qual a cidade que queremos, o projeto de Estado, e para o país. É nessa discussão estratégica que precisamos gastar mais tempo”, afirma.

 

 

Espaço cultural

 

 

O Coletivo Plural, no centro de Porto Alegre, possui uma ampla biblioteca aberta ao público. Nela, além de livros de formação, há literatura, em sua maioria escrita por mulheres. Para acessar, basta o usuário se cadastrar.

 

 

 

Fonte: Fabiana Reinholz, Katia Marko e Telia Negrão / BdF Rio Grande do Sul

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