Aos 60 anos, Sindicato aposta em diálogo nas plataformas virtuais e na reinvenção da luta sindical

Neste 1º de setembro de 2020, o Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas e Nova Santa Rita completa 60 anos. Concebida entre o fim dos anos 50 e o início dos anos 60, época de importantes mobilizações sociais e de abertura política sindical no país, a entidade vem construindo desde então uma trajetória de lutas e conquistas junto à classe trabalhadora.

 

 

Mais recentemente, imerso em um processo de reinvenção junto ao movimento sindical do Brasil, o Sindicato tem buscado alternativas de luta e diálogo, disputando a narrativa de construção da realidade da classe trabalhadora e se colocando contra os discursos neoliberais de “inovação”, “empreendedorismo” e “flexibilização”, estratégicos para o desmonte da ação coletiva necessário para o avanço dos trabalhadores.

 

 

O início da luta sindical metalúrgica em Canoas

 

 

Infelizmente, pouco se sabe da história do sindicato entre 1964 e o final dos anos 70. Os anos de repressão militar aos movimentos sociais foram os piores tempos para a luta sindical e a construção de uma base de lutas. Pra piorar, Canoas era considerada “área de segurança nacional” por causa da Petrobras e dos quartéis da Aeronáutica e do Exército na cidade, motivo pelo qual os movimentos sociais ficavam impedidos de prosperar e a vigilância contra os metalúrgicos era redobrada..

 

 

Movimento de oposição

 

 

No final dos anos 70, a ditadura militar começou a fragilizar-se e alguns focos de resistência começaram a manifestar a intenção de criar um novo sindicalismo para substituir o modelo inoperante e atrelado de então. Em Canoas, esse movimento iniciou no início dos anos 80 a partir das maiores metalúrgicas da época (Coemsa, Massey, Forjasul, Madef e Micheletto). Em pouco tempo, metalúrgicos históricos como Paulo Paim (hoje, senador), Maria Eunice (hoje, vereadora de Canoas), Freitas (Freitinhas) e Sérgio Matte (ex-presidente da Federação dos Metalúrgicos e, hoje, aposentado), entre outros, junto com antigos militantes da esquerda na região (o professor Adair Barcelos, os advogados Carlos Araújo e Lídia Woida, o padre Armindo Cattelan, entre outros) articularam um movimento de oposição aos dirigentes sindicais que, na época, insistiam em manter a estrutura eminentemente assistencialista e de pouca combatividade no sindicato. O exemplo foi posteriormente adotado em outras bases metalúrgicas e por outros fortes sindicatos da região.

 

 

A oposição saiu vitoriosa em 1981, quando a chapa encabeçada pelo Paulo Paim conquistou a direção do Sindicato e deu início a uma nova era na categoria, com lutas históricas e conquistas.

 

 

Nasce a maior Central Sindical de Trabalhadores da América Latina
Em 1983, Congresso Nacional da Classe Trabalhadora mudaria a trajetória da luta sindical no país. Realizado nos dias 26 e 28 de agosto, contou com a participação de trabalhadores rurais e urbanos, vindos de todas as regiões do país, elegeram Jair Meneguelli, metalúrgicos, como primeiro presidente da Central Única dos Trabalhadores do Brasil. Mais uma vez, o Sindicato esteve presente nesta construção, fundando a CUT e compondo a primeira direção da central.

 

 

Com uma trajetória que completou 37 anos em 2020, A CUT segue como a maior central sindical da América Latina e a quinta maior do mundo. Ao longo dos anos foi fundamental para a elaboração de importantes políticas de proteção aos trabalhadores. Entre elas, a lei que garantiu direitos às empregadas domésticas, a regulamentação de jornadas de trabalho, além do fortalecimento do setor público, da agricultura familiar e da elaboração e implantação da política de valorização do salário mínimo. Mais recentemente, a campanha para o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600,00, que o Governo Federal a princípio queria pagar apenas R$ 200,00, foi um importante passo para a permanência mínima de dignidade aos trabalhadores em meio à pandemia.

 

 

Décadas de lutas e avanços

 

 

O período de redemocratização chegou com inúmeros desafios aos trabalhadores. No final dos anos 70 e na primeira parte dos anos 80, os movimentos de greve deram o tom da necessidade de mudanças profundas nas relações de trabalho do Brasil. Na base de Canoas e Nova Santa Rita, paralizações nas fábricas, grande assembleias e greves gerais agitavam a vida sindical no município. Com o enfraquecimento do Regime Militar, a Assembleia Nacional Constituinte de 1987, que resultou na elaboração da Constituição Federal de 1988, foi o passo definitivo na construção de uma base para as lutas que viriam na década seguinte.

 

 

Os anos 90 ficaram marcados pelo avanço de políticas neoliberais no País, a partir de projetos conservadores que pretendiam atacar direitos trabalhistas e, desde então, flexibilizar as relações trabalhistas. O fantasma do desemprego, a inflação galopante e outros fenômenos da conjuntura exigiram do Sindicato não somente ações de mobilização e luta, mas também movimentos de solidariedade junto aos trabalhadores desempregados. Nesta época foi organizada a distribuição de cestas básicas a partir da contribuição de metalúrgicos que estavam empregados.

 

 

Nos anos 2000, com a eleição do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil, a luta sindical ganhou novo fôlego e foi valorizada, assim como a classe trabalhadora que por mais de dez anos teve aumento real nos salários e viu o salário mínimo nacional mais do que dobrar por meio de políticas públicas.

 

 

Os metalúrgicos de Canoas e Nova Santa Rita tiveram, por meio das negociações coletivas do Sindicato, a recuperação das perdas inflacionárias todos os anos, assim como uma média de 25% de aumento real entre 2004 e 2018 (Dieese). A Convenção Coletiva de Trabalho, que em 2003 previa o piso da categoria em R$ 367,53, viu uma década de ganhos, chegando a R$ 990,00 em 2014. Hoje, a categoria tem fixado o piso de R$ 1.394,00, uma conquista importante frente à realidade de um país sem Lei Salarial e que constantemente convive com tentativas políticas de acabar com os pisos e os ganhos mínimos estipulados (salário mínimo nacional e o Mínimo Regional do RS).

 

 

O Golpe foi nos trabalhadores

 

 

Desde 2015, a crise política brasileira tem afetado drasticamente a luta da classe trabalhadora e as relações de trabalho. O impeachment da presidenta Dilma Rousseff foi um prenúncio às políticas reformistas que tomariam o cenário e levariam à rápida aprovação de duas reformas profundas: a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência.

 

 

Inúmeras foram as mobilizações para barrar o avanço das propostas, que claramente não cumpririam os objetivos que o governo dava (gerar empregos, reduzir desigualdades e salvar a Previdência Social). Junto às fábricas, muitas mobilizações e atos foram realizados nos últimos anos, assim como atividades na sede do Sindicato com o objetivo de informar, debater e conscientizar os trabalhadores sobre as reformas.

 

 

Em 2017, surge o Comitê Sindical e Popular Contra a Reforma da Previdência em Canoas, integrado por inúmeras entidades sindicais (metalúrgicos, químicos, metroviários, professores, rodoviários…), movimentos populares (Caritas, Associações de Bairro, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), de estudantes e lideranças políticas. A organização mais ampla no município mostrou o protagonismo da região, que organizou uma grande mobilização contra a reforma em abril de 2017 (mais de duas mil pessoas marchando pelas ruas centrais) e a coleta de mais de três mil assinaturas contra a Reforma Trabalhista.

 

 

Mesmo com grandes lutas do movimento sindical em todo o país, o projeto de desmonte dos direitos e de precarização do trabalho e dos trabalhadores avançou. Os resultados prometidos não vieram, e para piorar, a eleição de um candidato claramente contrário aos direitos civis e à Democracia, assim como o surgimento de uma pandemia letal, inviabilizaram ainda mais as possibilidades de luta e mobilização.

 

 

Foi preciso se reinventar!

 

 

Muitos são os desafios do movimento sindical no atual momento. De forma nunca antes vista e vivida, estamos defendendo a vida dos trabalhadores nos ambientes de trabalho, buscando saídas para as políticas perversas que reduzem direitos e salários, assim como travando negociações pela permanência dos empregos frente o avanço do desemprego e da informalidade no país.

 

 

As ferramentas de luta precisaram ser reinventadas e com o apoio da tecnologia, hoje é possível dialogar e saber da realidade das fábricas por meio da Rede de Trabalhadores do Sindicato, um canal exclusivo na plataforma Whatsapp. Também, o envio de boletins e informes virtuais tem garantido o contato permanente com a categoria, que continua contando com um canal gratuito para ligações telefônicas para falar com os diretores.

 

 

Foi preciso se reinventar e este processo está somente começando. No entanto, nestes 60 anos de caminhada, o Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas e Nova Santa Rita já mostrou ser capaz de se adaptar, de persistir e resistir, pelo objetivo comum que sempre será a defesa da classe trabalhadora, em especial dos metalúrgicos e das metalúrgicas.

 

 

Seguimos, companheiros e solidários nestes novos tempos!

 

 

Fonte: STIMMMEC

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